Sábado, 18 de Setembro de 2010

A mochila verde tropa

Comprei-a no início dos anos oitenta, na Feira da Ladra, em Lisboa. Assídua frequentadora daquele espaço, andei a namorá-la (a ela ou outra igual) durante algum tempo, até que me decidi.

 

Eram seis da manhã, o despertador tocou. Vesti-me, bebi um iogurte e comi uma ou duas bolachas, desci as escadas a correr e, sempre a correr passei as ruas desertas (no Mucifal era assim, aos sábado de madrugada, não se via ninguém) até chegar ao café. Faltavam ainda alguns minutos para a chegada do autocarro. Entrei e, nem fiz o pedido, logo surgiu no balcão um café e uma nata. Era o habitual. De volta à rua, olhei para a esquerda e lá vinha o autocarro.

 

Entrei. Sentei-me e adormeci. Acordei quando já estava a chegar à estação.

 

Comprei o meu bilhete e entrei no comboio. Destino: Rossio. Voltei a adormecer. Acordei com uma barulheira enorme. Olhei para fora, estávamos no Cacém. Imensa gente a entrar, daí a barulheira.

 

Viagem tranquila até ao Rossio. Aí chegada, dirigi-me à paragem do autocarro, e lá fui eu até à Feira da Ladra.

 

Não sei porquê, mas gostava daquele espaço.

 

Percorri o espaço, parando aqui e ali, perguntando preços, regateando, quase nunca comprando... Até que cheguei ao local, ali na subida, do lado direito, à porta, lá estava ela pendurada, a sorrir-me.

 

Respirei fundo e entrei. Atrevi-me a perguntar o preço. Tinha dinheiro para ela. Finalmente ia levar para casa a mochila verde. O dono da "loja" ajudou-me a escolher uma das melhores. Agradeci-lhe. De saída olhei para uma série de lenços, de rede, camuflados, gostei deles, perguntei o preço. Pena, já não tinha dinheiro para levar um deles. Precisava almoçar e voltar para casa.

 

Saí porta fora feliz. Já tinha a minha mochila verde tropa. Não cabia em mim de tão contente que estava. Nem ouvi que me chamavam, até que senti um toque no ombro. Olhei espantada e fiquei assustada. Ao meu lado estava o dono da loja. Na mão, tinha um pequeno saco.

 

- Isto é seu! - disse-me ele

- Não, não é! Eu não tinha nenhum saco comigo.

- Agora já tem. Este! Abra-o... e veja se não é seu.

 

Abri o saco e os olhos. Surpresa das surpresas, o senhor estava a oferecer-me um dos lenços...

 

Anos e anos se passaram, quilómetros e mais quilómetros percorridos neste nosso rectângulo à beira mar plantado, histórias e aventuras, viagens de comboio, autocarro, barco, a pé, e como fiéis companheiros e por vezes, única companhia, a minha mochila verde tropa e o meu lenço camuflado...

 

 

             

 

 

sinto-me: bem
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escrito por Eusinha às 15:12

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6 comentários:
De Maria Araújo a 20 de Setembro de 2010 às 20:33
Com estas lembranças que marcam a vida, sabemos dar o valor ao que temos.
Gostei.
Beijinho
De Eusinha a 21 de Setembro de 2010 às 15:57
Sim, valorizamos de uma forma "saborosa".
Obrigada.
Beijinho
De Pintar a Cores a 22 de Setembro de 2010 às 12:23
Gostei desta história...muito bonita! Aliás desconfio que a EUSINHA deve ser também ela uma pessoa especial e única... Assim como a mochila verde...Parabéns por procurares fazer a diferença neste mundo de loucos! Beijinho!
De Eusinha a 23 de Setembro de 2010 às 12:56
Olá
Obrigada pelas tuas palavras. Tocaram-me fundo. Tanto que nem sei bem o que escrever...
Beijinhos
De Pintar a Cores a 24 de Setembro de 2010 às 08:48
Ainda bem, é para isso que servem as palavras... Beijinho!
De lady of the forest a 8 de Outubro de 2010 às 14:15
realmente só damos valor ao que nos custa a obter... eu tenho passado por situações semelhantes... vejo, namoro durante bastante tempo e depois, quando posso, vou e compro... e são essas coisas que tenho estimado com mais carinho e que ainda hoje me dão prazer em possuir... gostei do blog... continua... beijinhos

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